Como recordaria um velho bibliotecário, entre códices mal iluminados e prateleiras que sussurram segredos de pergaminho, não há futuro que se compreenda sem que se curve, ainda que com relutância, diante do passado. Hegel, que via no espírito absoluto mais do que uma abstração, sustentava que os acontecimentos — esses entes que deslizam no tempo como sombras em uma tapeçaria bizantina — só se revelam em sua plenitude quando reconhecemos o passado como substância do presente.
Mas aqui está o paradoxo: o passado não é apenas aquilo que já foi — é o que ainda pulsa, o que insiste em sobreviver sob as formas do agora, manifestando-se em possibilidades e contingências que, ao mesmo tempo, devem ser superadas e conservadas. Sim, aufheben — este verbo hegeliano, que é como uma esfinge que sorri com três rostos: suprimir, conservar e elevar.
Na cosmogonia germânico-nórdica, por sua vez, o tempo não se permite dividir em segmentos confortáveis para historiadores apressados. O passado está ali, vivo como um deus manco, atravessando o presente que não cessa de se desenrolar, como a serpente de Jörmungandr que morde a própria cauda — eterno retorno, ou talvez eterno recomeço. O tempo é, nesse sentido, um campo de batalha onde a memória se ergue como arma e escudo.
E Fernand Braudel, cartógrafo das longas durações, sabiamente advertia: l’histoire est une dialectique de la durée. A história, dizia ele, não é mera sucessão de eventos, mas uma travessia demorada, uma arqueologia do social em que passado e presente se entrelaçam como fios de ouro e sombra — inseparáveis, inevitáveis, como um manuscrito que resiste à tradução definitiva.